Nem heroína nem coitadinha

Nem heroína nem coitadinha

Mulheres que passam, na vida real, pela experiência que a personagem da atriz Alinne Moraes retrata na novela das oito, “Viver a vida” da Rede Globo, têm rotinas normais e não esperam reconhecimento especial por isso.

“As pessoas me dão parabéns porque acham espantoso ver uma pessoa tetraplégica numa cadeira de rodas saindo de casa”, diz a farmacêutica Greyce Follmann, de 26 anos, cadeirante desde os 19.

Ela estava sem cinto de segurança no banco de trás de um carro, no interior do Paraná, quando sofreu um acidente. Ficou sem movimentos nos membros inferiores e com mobilidade parcial nos braços, mas nenhuma nas mãos.

Após passar cinco meses deitada em casa, sem querer ver as pessoas e com vergonha de sair, Greyce começou um tratamento para se adaptar às novas condições. Voltou a estudar em São Paulo, onde encontrou uma instituição com acesso adequado.

“Comecei a conviver com outros cadeirantes e vi que não era esse bicho todo”, conta ela, que hoje mantém um dia a dia comum a outros jovens da sua idade: o trabalho diário; a diversão no cinema e nas festas com amigos no fim semana. Para marcar a entrevista, pediu à repórter que não telefonasse muito cedo porque iria para a balada na noite anterior. Vaidosa, colocou próteses de silicone nos seios e tirou do guarda-roupa as blusas de alça.

Para construir Luciana, Alinne conviveu com cadeirantes e observou seu cotidiano – desde as tarefas triviais até o lado emocional. “Em minha pesquisa, conheci muitas pessoas que passaram por situações parecidas: atrizes, jornalistas, jogadoras, bailarinos. Pode acontecer com qualquer um, essa é a realidade”, diz ela.

Colega de profissão, a também atriz Tabata Contri, de 28 anos, viajava com amigos para passar o Ano Novo numa cidade do litoral Norte de São Paulo. Ela estava no banco de trás, sem cinto de segurança, quando o veículo caiu de uma ribanceira.

Tabata passou por cirurgia e ficou 4 meses internada. Transferida para um hospital universitário na capital paulista, conta que só soube que sua lesão era irreversível quando um médico-professor explicava o caso dela a um grupo de alunos. “Foi horrível saber daquele jeito. Chorei o dia todo”, relembra.

Sem sensibilidade da cintura para baixo, foi fazer um tratamento em Brasília. “A gente volta a ser bebê”, descreve Tabata. “Passa a usar fralda, tem que reeducar a bexiga, o intestino”, exemplifica. “Depois vira criança: aprende a tomar banho sozinha, trocar de roupa; e vem a fase da adolescência, quando a gente faz tudo só, vai para a balada, passeia, viaja, namora”, continua. Na fase adulta, “a gente vai trabalhar para pagar as contas”, arremata.

Além de atriz, ela é consultora de inclusão – dá palestras e orientações a empresas que precisam se adaptar às necessidades de cadeirantes. Quando sai para se divertir e percebe que o lugar não é adaptado, não deixa de frequentá-lo. “Se a gente deixa de ir, deixa de motivar as pessoas a fazerem o acesso”, diz.

'Problema todo mundo tem'

Para a artesã Cristina Gimenez, de 38 anos, a situação das calçadas e ruas também cria dificuldades para os deficientes. Por isso ela, que passou a depender da cadeira de rodas aos 27 anos por causa de uma doença na medula óssea, evita sair sozinha. Costuma frequentar a igreja do bairro, reuniões com amigos e festas de família. “Não reclamo da vida. Problema todo mundo tem. Quem anda e quem fica em cadeira de rodas”, diz.

Opinião semelhante é compartilhada por Alinne. “Todos nós um dia acordamos tristes, noutros acordamos felizes. Eles também são assim, como qualquer outra pessoa”, diz. “A deficiência em si não faz de ninguém um herói. Qualquer um teria de enfrentar os mesmos problemas se estivesse naquela condição”.

Tabata, a atriz e consultora, faz questão de não ser tratada como coitadinha. “Nem como super-herói. Sou uma pessoa normal”, diz. Como ela, Greyce torce para que a personagem Luciana reflita a realidade dos deficientes e não volte a andar milagrosamente. “Isso não acontece na realidade”, diz a farmacêutica do Paraná. “Isso não existe”, faz coro Tabata. “A não ser que chegue um extraterrestre e nos opere com técnicas de outro mundo”.

por Carla Meneghini e Luísa Brito (Do G1, no Rio e em São Paulo)

Fonte: G1